Friday, January 23, 2009

Música, Educação e Cérebro




Como prometi, começo aqui a comentar, com certo detalhe, a obra A Well-Tempered Mind : Using music to help children listen and learn, de Peter Perret e Janet Fox. O livro aborda a experiência coordenada por Perret, maestro de uma orquestra sinfônica, sobre a introdução de música no espaço escolar. Mas, não se trata de uma experiência qualquer. O maestro, convencido de que música pode fazer diferença na aprendizagem, colocou um quinteto de sopro dentro de uma escola de ensino fundamental cujos alunos tinham notas muito abaixo da média em testes estaduais de desempenho escolar.

O projeto de Perret não se confunde com ensino de música nem com o uso dela para ensinar determinados conteúdos. O quinteto foi à escola para proporcionar às crianças experiências musicais articuladas com temas relevantes do currículo.

Neste post, vou registrar as principais idéias apresentadas na Introdução da obra. Mas antes de entrar no conteúdo, algumas informações são precisas.

Quem faz a Introdução não são os autores, mas o cientista, Frank B. Wood, da Wake Forest University School of Medicine. E há uma razão para isso. Um ano depois de iniciada sua experiência musical na escola, Perret solicitou a acadêmicos de uma faculdade de educação acompanhamento para dar consistência científica ao que o quinteto estava fazendo. Os educadores não se interessaram. O maestro então procurou apoio em outra parte, em departamentos de neurociência. Os cientistas da área viram a experiência com muito interesse. Proporcionaram a Perret o apoio investigativo que ele estava buscando. Por isso, na hora em que o livro estava sendo escrito, o Dr. Frank Wood se prontificou a fazer uma introdução.

A partir daqui, vou elaborar um texto que procura resumir e destacar os principais idéias desenvolvidas por Wood.

Não é fácil determinar a natureza da música, ou os motivos pelos quais qualquer um deve conhecê-la ... A primeira questão é se a música é ou não é parte da educação. (Aristóteles em Política)


Todo mundo sabe que a música é importante. Mas ninguém sabe exatamente por que. E o velho Aristóteles não ignorava isso. Pouca coisa mudou, aliás, nestes vinte quatro séculos que nos separam do grande filósofo grego. Por isso é bom seguir os passos dele. O velho Ari indica caminhos interessantes para começar uma investigação sobre o sentido da música para nossa vida.

É interessante notar que as observações de Aristóteles sobre música estão em sua obra Política, não no Tratado da Alma. Esta última abordava temas que hoje classificamos como psicológicos. O grande gênio grego pensava que a música, mais que uma questão psicológica, é um assunto relativo à educação dos jovens e por isso relacionado com a cidadania responsável. Para ele, o poder da música devia-se a sua capacidade de : relaxar, construir o caráter e cultivar a mente. Par nós hoje essas qualidades parecem não fazer sentido. Mas é preciso entendê-las no contexto da Grécia clássica. Aristóteles vê a música como uma atividade de lazer. Como uma atividade de cultivo da mente.

Música, portanto, não é "trabalho". É atividade prazerosa de apreciação artística. Não precisa ser justificada por qualquer motivo externo. Ela é a sua própria justificativa. Como diz Wood:

Ao contrário da leitura e da escrita, que Aristóteles considera valiosas por causa da vantagem que trazem para a sociedade, uma vez que comunicam conhecimento explícito, a música não logra nada externo nem veicula conteúdo. Ela existe para ser apreciada por si mesma, o que é um benefício intelectual apenas para o indivíduo. Na terminologia aristotélica, a música não é nem útil nem necessária, ela é nobre.

A definição aristotélica realça a música como uma forma capaz de induzir estados mentais correspondentes a certas emoções. Não é preciso dizer se uma produção musical é triste ou alegre, ou se corresponde a outras emoções humanas. Sem necessidade de qualquer palavra ou explicação há uma trama entre a natureza de uma melodia e o estado mental que ela provoca. Essa característica é muito interessante no campo da neurociência, pois a música permite investigar estados mentais que dispensam conteúdo ou explicação prévia. Em Aristóteles a música é entendida como forma, como contorno mental das coisas.

A noção de forma proposta por Aristóteles é importante porque corresponde ao que hoje estamos chamando de competências cognitivas. E como não tem um conteúdo externo a carregar, a música é pura forma. Em termos educacionais, a hipótese a ser explorada é a de utilizar tais puras formas como capacidades mais gerais que podem apoiar aprendizagens em outras áreas. Em outras palavras, pessoas mais musicais talvez tenham facilidade para aprender determinados conteúdos que precisam ser acomodados em formas já dominadas "musicalmente" [essa possibilidade é explorada na experiência inspirada por Perret, e os dados mostram que os alunos que passaram pelo projeto melhoram consideravelmente seus desempenhos em inglês e matemática].

A sugestão do filósofo grego mostra um caminho para os estudos científicos no campo da neurociência. O começo da história não é necessário entender como as crianças aprendem música. Vale a pena utilizar aqui textualmente as palavras de Wood:

A essência da música, como forma sem conteúdo, é filosoficamente interessante, e ela fornece uma avenida promissora de pesquisa na neurociência cognitiva. Como as formas são registradas no cérebro, e como os estados emocionais ou mentais podem ser induzidos por tais formas, é uma uma questão muito boa que as ciências podem investigar de modo consequente, com bons resultados. É, porém, na educação que nós podemos estudar tal questão de modo mais promissor. Aqui já não falamos de cérebro mas de como uma dada experiência musical da criança influencia seu crescimento intelectual e desempenho escolar. Se Aristóteles estiver certo de que a música é sobretudo uma questão educacional, então o progresso mais rápido na neurociência cognitiva da música vai depender de estudos sobre aprendizagens das crianças. A maneira como a música "opera" na sala de aula, e os resultados que produz, terá muito que nos ensinar como a música "opera" no cérebro.


As discussões sobre aprendizagem e música acontecem dentro de duas diferentes molduras teóricas. Uma sugere que, assim como a linguagem, a música é uma capacidade "instintiva". Ou seja, desde o nascimento, nosso cérebro já tem qualidades que nos pré-dispõem para a música. Outra sugere que a música é consequência da aplicação de capacidades gerais e abstratas de nosso cérebro usadas também para resolver outros problemas. Embora ainda não existam dados suficientes para apoiar em definitivo uma ou outra alternativa, já se sabe que algumas capacidades linguísticas "inatas" guardam relação com algumas capacidades musicais.

Não importa muito qual das duas molduras se revelará mais consistente do ponto de vista científico. O que importa é que já há dados indicando que contato com a música, sobretudo em eventos que incluem execução, guarda correlação positiva com a melhoria na aprendizagem de certas dimensões de conteúdos escolares. Isso ficou evidenciado na escola de Bolton, local original do projeto conduzido pelo maestro Perret. Uma das coisas que certamente a exposição das crianças á música causou foi "conscientização" fonética. Tal conscientização é um pré-requisito fundamental para a aprendizagem da leitura. E em Bolton, as crianças que participaram das atividades do quinteto de sopro apresentaram aprendizagem de leitura muito superior às de outros alunos na mesma escola ou no estado.

Depois de construir pontes entre o pensamento de Aristóteles, o programa investigativo no campo da neurociência e a experiência de Bolton, Wood considera algumas direções importantes em termos dos significado da educação musical:

  1. O que se aprende em música? Não é propriamente conteúdo no sentido usual. É sobretudo capacidade de mapear certas capacidades no cérebro.
  2. Como outras áreas de competência intelectual são afetadas pela aprendizagem musical? A resposta é curta:"pelo encorajamento da apreciação de formas separadas de conteúdo".
  3. A música deve ser ensinada como uma habilidade de méritos próprio, ou simplesmente deve ser usada como método para ensinar outros conteúdos? A resposta aqui também é curta: usar música como veículo para outros conteúdos empobrece a aprendizagem e revela desconhecimento do papel mais nobre dessa arte em termos cognitivos.
As questões aqui elencadas, assim como suas respostas não são uma solução definitiva. Elas são muito mais teses que vale a pena investigar no campo da ciência.

A posição de Wood com relação à musica em geral e com relação à experiência de Bolton é a de que há ainda um longo caminho a ser percorrido. Ele, porém, tem uma certeza, a exposição das crianças á música, com oportunidades de experimentar produções de boa qualidade, trazem ganhos significativos em termos de aprendizagens em todas as áreas do currículo. O que precisamos conhecer é como e por que isso acontece.

Sinto que ainda não aprendi a produzir um bom texto nessa aventura de analisar de modo detalhado uma obra. Mas acho que vou aprender fazendo. No próximo post vou apresentar o primeiro capítulo do livro, Fanfare, um pequeno texto que mostra como tudo começou.

Monday, January 19, 2009

Sunday, December 14, 2008

Musica, educação e slow blogging

O título deste post parece letra de um novo Samba do Crioulo Doido (Saravá, Stalislaw!). Mas, uma vez explicado, parecerá apenas uma maneira de blogar.
Faz algum tempo que li em algum blog que há um caminho interessante para postar com certa frequencia: escrever comentários detalhados sobre livros que valem a pena. A sugestão não se confunde com resenha, pois supõe comentários para cada capítulo de uma obra. O exercício tem várias vantagens:
  • ajuda o comentarista a entender melhor o que lê;
  • divulga idéias que merecem ser mais conhecidas;
  • converte o blog num espaço de conversa mais organizada.
Esse modo de conversar sobre uma obra está na linha do slow blogging. Ou seja, num blogar que contraria um pouco nosso entendimento a respeito dos diários web, pois a idéia hegemônica sobre blogs é a de que os posts precisam ser ágeis, imediatos, curtos. Tudo muito rápido. O slow blogging navega contra a corrente: tem mensagens mais longas, não se compromete com frequência muito grande de postagens. Importa degustar o escrito. Não importa a rapidez.
Começo com este post uma experiência. Vou escrever com certo vagar comentários sobre uma obra muito interessante: A Well Tempered Mind: Using music to help children listen and learn, de Peter Perret e Janet Fox. A obra narra uma experiência de presença da música na educação. Mais concretamente, da aventura de um quinteto de sopro em encontros com alunos das três primeiras séries do ensino fundamental num escola pública de Wiston-Salem. Fico por aqui. Assim que pintar a oportunidade, começarei meus comentários detalhados sobre o livro de Perret e Fox.

Tuesday, December 02, 2008

Tuesday, November 04, 2008

Estudantes ou clientes?

Sempre vi com estranheza esta idéia de que "nossos alunos são nossos clientes". Aliás, do ponto de vista histórico, a palavra cliente não tem qualquer nobreza. Clientes eram aqueles desocupados que formavam claques de políticos da velha Roma. As clientelas, no caso, eram constituídas por meio de pequenos favores dos poderosos.

Admiro muito o cientista da computação Alan Kay. Minha admiração acaba de crescer ao descobrir um pequeno texto em que ele aborda a questão do cliente na educação. Copio tal texto a seguir. Infelizmente não disponho de tempo para traduzí-lo, nem para fazer comentários. Por isso opero aqui um registro e espero voltar ao tema oportunamente.

Hi Mark --

I think the more important point here has to do with the differences between education and vocational training. Neil Postman wrote a number of essays lamenting the huge change in universities -- which have pretty rapidly shifted from being the definers of "what higher education means" to vendors serving customers. He pointed out how ludicrous it could be to have uneducated people demanding courses and rejecting others, largely driven by perceptions of what would help with future jobs as opposed to future abilities to think well and with perspective.

I think these are important distinctions even outside of the liberal arts, and are even relevant in the engineering disciplines. But once universities start saying "we have customers, and we must cater to them", real education goes out the window, especially for the undergraduate years.

In the case of computing, it's not clear just what do to since a strong case could be made that academics also have very weak and career driven ideas of what computing and they should be doing. As you know, I thought that the ARPA/PARC conceptions of what we should be doing were pretty good, and they were built on the premise that our field had not been developed yet, and so most of the education and training in university should be devoted to helping the students do better than the previous generation in not just advancing things, but in trying to invent the twin fields of computer science and software engineering.

However, given that the strong research funding is not with us and there is no longer a strong research community devoted to the above, I would think that it is the universities that just have to wake up and get better. The biggest initial need is to arrive at a much more fruitful perspective on computing itself that can be used to both to understand the past better, but also to see that the present "normals" are much more arbitrary and accidental constructs than most people think. Once "normal" is made visible and can be seen as a construction, then it is much easier to see possible futures that were quite hidden by convention.

Cheers,

Alan

Saturday, October 25, 2008

Música e Política

Num domingo, pouco antes do primeiro turno da eleição paulistana, vi carreata de certo candidato a vereador na rua da Glória, Liberdade. O que me chamou atenção foi a música de campanha do aspirante a edil, péssima. Reagi de imediato, pensando:

- "Não voto neste cara, nem a pau".

Reagi sem conhecer plataforma política e vida do candidato. A música me incomodou demais. Quem aceita uma barbaridade sonora como aquela para animar seus eleitores é um perigo para a cultura. Depois tive um pensamento de complacência:

- "Vai ver que o cara sofre de amusia congênita".

Mesmo assim, continuo achando que nós, eleitores, não merecemos barbaridade como aquela. Quanto ao candidato, acho que o dito deveria abandonar a carreira política e converter-se em sujeito dos estudos de Isabelle Peretz.

Mas a política está proporcionando oportunidades para a criação de música muito interessante. É o que vem acontecendo na campanha eleitoral americana.

Acabo de ver no Youtube uma das produções musicais dedicadas a Sarah Palin (Deus nos livre se o Mcain for eleito, falecer em seguida, e essa barbie das geleiras assumir a presidência da Gringolândia!). O VT é uma peça composta por supostos vizinhos russos da candidata. Melodia aceitável. Extremamente hilária. Os personagens são caricacturas de russos, com corte de cabelo dos anos cinquenta (A cabeleira de um deles, certamente, foi fixada com gumex!). O ambiente também é um cenário de lugar decadente e de mau gosto (a Rússia do capitalismo selvagem?). Mas chega de conversa. O bom mesmo é ver a obra:

Tuesday, October 07, 2008

Leitura atlética



Acabo de escrever um texto que faz referência aos muitos problemas da aprendizagem da leitura em nossos dias. E no processo de escrever, lembrei-me de um antigo companheiro de república nos idos de 68/69.

Usávamos um pequeno escritório do casarão para estudo. Minha mesa ficava ao lado da mesa do citado companheiro. Quase todos os dias eu observava uma cena engraçada e dolorosa: a atividade de estudo do moço.

Antes de falar da graça e da dor que testemunhei, preciso apresentar o personagem. Ele era um atleta. Zagueiro central titular do time da escola. Não era um craque, mas seu vigor físico e vontade impunham respeito aos mais brilhantes dianteiros. Era um menino nascido na roça, filho de sitiantes italianos. Fizera um primário abreviado (três anos) com professores leigos. Quando começou o ginásio na cidade ainda não estava completamente alfabetizado. Aos trancos e barrancos chegou ao ensino superior.

Volto à graça e à dor. Qualquer texto de estudo, superficial ou profundo, fácil ou difícil, era um desafio quase que insuperável para meu companheiro. Mas ele era um moço voluntarioso e valente. Não desistia. Tratava os livros como se fossem atacantes a serem anulados dentro da área. Pegava-os com força, segurando-os com ambas as mãos. E fazia da leitura uma atividade física, um briga contra as letras. Textos mais difíceis eram lidos repetidamente em voz alta. Textos mais fáceis eram lidos sem som aparente, mas com lábios que não paravam de se movimentar. E parecia que aquelas mãos fortes iriam estraçalhar os pobres livros.

Essa história, a meu ver, ilustra a necessidade de uma boa alfabetização no primário. Perdão! Nos primeiros anos do ensino fundamental.