Como prometi, começo aqui a comentar, com certo detalhe, a obra A Well-Tempered Mind : Using music to help children listen and learn, de Peter Perret e Janet Fox. O livro aborda a experiência coordenada por Perret, maestro de uma orquestra sinfônica, sobre a introdução de música no espaço escolar. Mas, não se trata de uma experiência qualquer. O maestro, convencido de que música pode fazer diferença na aprendizagem, colocou um quinteto de sopro dentro de uma escola de ensino fundamental cujos alunos tinham notas muito abaixo da média em testes estaduais de desempenho escolar.
O projeto de Perret não se confunde com ensino de música nem com o uso dela para ensinar determinados conteúdos. O quinteto foi à escola para proporcionar às crianças experiências musicais articuladas com temas relevantes do currículo.
Neste post, vou registrar as principais idéias apresentadas na Introdução da obra. Mas antes de entrar no conteúdo, algumas informações são precisas.
Quem faz a Introdução não são os autores, mas o cientista, Frank B. Wood, da Wake Forest University School of Medicine. E há uma razão para isso. Um ano depois de iniciada sua experiência musical na escola, Perret solicitou a acadêmicos de uma faculdade de educação acompanhamento para dar consistência científica ao que o quinteto estava fazendo. Os educadores não se interessaram. O maestro então procurou apoio em outra parte, em departamentos de neurociência. Os cientistas da área viram a experiência com muito interesse. Proporcionaram a Perret o apoio investigativo que ele estava buscando. Por isso, na hora em que o livro estava sendo escrito, o Dr. Frank Wood se prontificou a fazer uma introdução.
A partir daqui, vou elaborar um texto que procura resumir e destacar os principais idéias desenvolvidas por Wood.
Não é fácil determinar a natureza da música, ou os motivos pelos quais qualquer um deve conhecê-la ... A primeira questão é se a música é ou não é parte da educação. (Aristóteles em Política)
Todo mundo sabe que a música é importante. Mas ninguém sabe exatamente por que. E o velho Aristóteles não ignorava isso. Pouca coisa mudou, aliás, nestes vinte quatro séculos que nos separam do grande filósofo grego. Por isso é bom seguir os passos dele. O velho Ari indica caminhos interessantes para começar uma investigação sobre o sentido da música para nossa vida.
É interessante notar que as observações de Aristóteles sobre música estão em sua obra Política, não no Tratado da Alma. Esta última abordava temas que hoje classificamos como psicológicos. O grande gênio grego pensava que a música, mais que uma questão psicológica, é um assunto relativo à educação dos jovens e por isso relacionado com a cidadania responsável. Para ele, o poder da música devia-se a sua capacidade de : relaxar, construir o caráter e cultivar a mente. Par nós hoje essas qualidades parecem não fazer sentido. Mas é preciso entendê-las no contexto da Grécia clássica. Aristóteles vê a música como uma atividade de lazer. Como uma atividade de cultivo da mente.
Música, portanto, não é "trabalho". É atividade prazerosa de apreciação artística. Não precisa ser justificada por qualquer motivo externo. Ela é a sua própria justificativa. Como diz Wood:
Ao contrário da leitura e da escrita, que Aristóteles considera valiosas por causa da vantagem que trazem para a sociedade, uma vez que comunicam conhecimento explícito, a música não logra nada externo nem veicula conteúdo. Ela existe para ser apreciada por si mesma, o que é um benefício intelectual apenas para o indivíduo. Na terminologia aristotélica, a música não é nem útil nem necessária, ela é nobre.
A definição aristotélica realça a música como uma forma capaz de induzir estados mentais correspondentes a certas emoções. Não é preciso dizer se uma produção musical é triste ou alegre, ou se corresponde a outras emoções humanas. Sem necessidade de qualquer palavra ou explicação há uma trama entre a natureza de uma melodia e o estado mental que ela provoca. Essa característica é muito interessante no campo da neurociência, pois a música permite investigar estados mentais que dispensam conteúdo ou explicação prévia. Em Aristóteles a música é entendida como forma, como contorno mental das coisas.
A noção de forma proposta por Aristóteles é importante porque corresponde ao que hoje estamos chamando de competências cognitivas. E como não tem um conteúdo externo a carregar, a música é pura forma. Em termos educacionais, a hipótese a ser explorada é a de utilizar tais puras formas como capacidades mais gerais que podem apoiar aprendizagens em outras áreas. Em outras palavras, pessoas mais musicais talvez tenham facilidade para aprender determinados conteúdos que precisam ser acomodados em formas já dominadas "musicalmente" [essa possibilidade é explorada na experiência inspirada por Perret, e os dados mostram que os alunos que passaram pelo projeto melhoram consideravelmente seus desempenhos em inglês e matemática].
A sugestão do filósofo grego mostra um caminho para os estudos científicos no campo da neurociência. O começo da história não é necessário entender como as crianças aprendem música. Vale a pena utilizar aqui textualmente as palavras de Wood:
A essência da música, como forma sem conteúdo, é filosoficamente interessante, e ela fornece uma avenida promissora de pesquisa na neurociência cognitiva. Como as formas são registradas no cérebro, e como os estados emocionais ou mentais podem ser induzidos por tais formas, é uma uma questão muito boa que as ciências podem investigar de modo consequente, com bons resultados. É, porém, na educação que nós podemos estudar tal questão de modo mais promissor. Aqui já não falamos de cérebro mas de como uma dada experiência musical da criança influencia seu crescimento intelectual e desempenho escolar. Se Aristóteles estiver certo de que a música é sobretudo uma questão educacional, então o progresso mais rápido na neurociência cognitiva da música vai depender de estudos sobre aprendizagens das crianças. A maneira como a música "opera" na sala de aula, e os resultados que produz, terá muito que nos ensinar como a música "opera" no cérebro.
As discussões sobre aprendizagem e música acontecem dentro de duas diferentes molduras teóricas. Uma sugere que, assim como a linguagem, a música é uma capacidade "instintiva". Ou seja, desde o nascimento, nosso cérebro já tem qualidades que nos pré-dispõem para a música. Outra sugere que a música é consequência da aplicação de capacidades gerais e abstratas de nosso cérebro usadas também para resolver outros problemas. Embora ainda não existam dados suficientes para apoiar em definitivo uma ou outra alternativa, já se sabe que algumas capacidades linguísticas "inatas" guardam relação com algumas capacidades musicais.
Não importa muito qual das duas molduras se revelará mais consistente do ponto de vista científico. O que importa é que já há dados indicando que contato com a música, sobretudo em eventos que incluem execução, guarda correlação positiva com a melhoria na aprendizagem de certas dimensões de conteúdos escolares. Isso ficou evidenciado na escola de Bolton, local original do projeto conduzido pelo maestro Perret. Uma das coisas que certamente a exposição das crianças á música causou foi "conscientização" fonética. Tal conscientização é um pré-requisito fundamental para a aprendizagem da leitura. E em Bolton, as crianças que participaram das atividades do quinteto de sopro apresentaram aprendizagem de leitura muito superior às de outros alunos na mesma escola ou no estado.
Depois de construir pontes entre o pensamento de Aristóteles, o programa investigativo no campo da neurociência e a experiência de Bolton, Wood considera algumas direções importantes em termos dos significado da educação musical:
- O que se aprende em música? Não é propriamente conteúdo no sentido usual. É sobretudo capacidade de mapear certas capacidades no cérebro.
- Como outras áreas de competência intelectual são afetadas pela aprendizagem musical? A resposta é curta:"pelo encorajamento da apreciação de formas separadas de conteúdo".
- A música deve ser ensinada como uma habilidade de méritos próprio, ou simplesmente deve ser usada como método para ensinar outros conteúdos? A resposta aqui também é curta: usar música como veículo para outros conteúdos empobrece a aprendizagem e revela desconhecimento do papel mais nobre dessa arte em termos cognitivos.
A posição de Wood com relação à musica em geral e com relação à experiência de Bolton é a de que há ainda um longo caminho a ser percorrido. Ele, porém, tem uma certeza, a exposição das crianças á música, com oportunidades de experimentar produções de boa qualidade, trazem ganhos significativos em termos de aprendizagens em todas as áreas do currículo. O que precisamos conhecer é como e por que isso acontece.
Sinto que ainda não aprendi a produzir um bom texto nessa aventura de analisar de modo detalhado uma obra. Mas acho que vou aprender fazendo. No próximo post vou apresentar o primeiro capítulo do livro, Fanfare, um pequeno texto que mostra como tudo começou.
