Monday, January 21, 2008

Porco Assado


Boas histórias acabam sendo recontadas. E cada vez que alguém as reconta, mudam-se personagens, enredos, ênfases. É o preço da fama (das histórias) e da falta de cuidado (dos recontadores) na busca de referências. Uma das histórias que recontei tem a seguinte estrutura: guerreiros de uma tribo percorrem trecho da floresta após um incêndio; encontram pelo caminho volumes negros com cheiro bom; experimentam; alimento delicioso; eram porcos que não conseguiram escapar do fogo; porcos assados; os volumes foram levados para aldeia; aconteceu o primeiro churrasco do planeta; dias mais tarde, a tribo queria mais porco assado; os sábios estudaram o problema; decidiu-se incendiar parte da floresta; nenhum porco assado foi encontrado; um visitante propõe método diferente: caçar porcos, prendê-los num cercado, assar porcos numa fogueira sempre que a tribo quisesse mais um churrasco; proposta rejeitada: mudava completamente a maneira conhecida de assar porcos; incêndios continuam; porcos fogem; nada de churrasco; floresta acaba; nunca mais houve churrasco; a tribo, apesar de não conseguir mais porcos assados, reuniu vasta experiência de como queimar florestas.
Reescrevi a tal história a partir de uma narrativa feita por Emílio Sandin Marques, do IPEA, numa palestra em 1978. E usei o material como ponto de partida para conversas sobre planejamento educacional. Nunca soube, porém, qual era a versão original de "Porco Assado". Agora, trinta anos depois, descobri, por acaso, como tudo começou. No livrinho Os pioneiros do pragmatismo americano , John Shook informa que a história que recontei era utilizada por Dewey para conversas sobre meios e fins no campo da ética. Mas o autor da história não é o grande educador americano. Ele, corretamente, dava crédito a Charles Lamb. A versão utilizada por Dewey é que segue:
A primeira vez que se provou porco assado foi quando um acidente fez incendiar uma casa onde confinavam porcos. Enquanto vasculhavam os escombros, os proprietários tocaram nos porcos chamuscados pelo fogo, provocando queimaduras superficiais em seus dedos. Ao levar impulsivamente os dedos queimados às suas bocas, para resfriá-las, eles experimentaram um novo sabor. Como gostaram do sabor, passaram a construir casas, povoando-as com porcos, e depois incendiando-as (cf. p. 161)

1 Comments:

Blogger Jorge Ramiro said...

Há aqueles que melhoram as histórias, eu ouvi a mesma história contada por duas pessoas diferentes. A história de um cão e de suas pulgas. O fato de que a melhor coisa para pulgas é Matacura.

6:11 AM  

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