Thursday, November 22, 2007

E os conteúdos?

Em abril de 2005, o The New York Review of Books publicou um artigo que pensei em traduzir. Trata-se de um texto de Roger Shattuck: The Shame of the Schools. Reli a matéria recentemente e achei que a oportunidade de uma tradução integral não é mais o caso. Mas ainda acho que vale a pena divulgar as opiniões de Shattuck, pois elas são um alerta importante para quem anda repetindo alegremente os bordões das atuais modas educacionais.
Em 2000, Roger Shattuck foi escolhido para integrar o conselho de uma escola de ensino médio no Estado de Vermont, USA. Surpreendeu-se com as muitas demandas burocráticas que precisam ser atendidas por conselheiros numa escola. Surpreendeu-se mais ainda porque o conselho nunca discutia currículo e programas de estudo. Resolveu-se inteirar-se sobre o que estava sendo ensinado. Visitou salas de aula. Mas não conseguiu formar uma boa idéia do que estava acontecendo. Voluntariamente ingressou na comissão de currículo da escola, representado o conselho comunitário. Descobriu que importantes decisões curriculares eram orientadas por documentos no nível estadual e distrital. Tais documentos guardam muitas semelhanças com os nossos PCN's (Pârametros Curriculares Nacionais).
Oa analisar os guias curriculares, o autor descobriu que os mesmos não propunham planos de estudo, nem listavam conteúdos por níveis ou séries. As orientações eram (e ainda são) introduzidas por declarações de que os alunos devem "examinar, investigar, entender, ou interpretar imensos tópicos intelectuis tais como ficção, natureza e cultura". Os verbos ensinar, aprender e estudar eram insignes ausentes. Em nenhuma parte Shattuck encontrou tópicos tais como "sistema solar", "democracia ateniense", "osmose", "Martin Luther King", e muito menos "Luther" (Martinho Lutero).
Os documentos estudados eram sobretudo apresentações de doutrinas pedagógicas, marcadamente o construtivismo. Para um leitor atento, tais documentos, segundo Shattuck, refletiam certas modas intelectuis do momento como inteligências múltiplas, construtivismo ou aprendizagem por descoberta, aprendizagem personalizada, pensamento crítico ou pensamento de nível mais elevado. Em nenhuma parte dos guias curriculares do Estado de Vermont ou do Distrito de Addison falava-se de conteúdo.
Shattuck mostra que as orientações dos guias curriculares em seu estado e em outras partes dos Estados Unidos refletem um pensamento que se estruturou nos meios da Escola Nova. As teorias mais recentes, como o construtivismo, foram incorporadas ao movimento, mas a ênfase continua sendo a de uma escola centrada no aluno e sem grande compromisso com determinados conteúdos historicamente constituídos e definidores de uma certa cultura. O autor mostra que a principal figura da Escola Nova, o filósofo e educador John Dewey assumiu uma posição radical no início, perfilando ao lado de outros educadores que criticavam a educação acadêmica e qualquer proposição de conteúdos mínimos para orientar propostas curriculares. Mas , Dewey deixou de lado tal radicalismo bastante cedo e propôs uma conciliação entre interesses do aluno e um currículo orientado para determinados conteúdos. Para clarear o ponto, Shattuck cita a seguinte declaração do próprio Dewey:

... A criança e o currículo são simplesmente dois limites que definem um único processo. Assim como dois pontos definem uma linha reta, o presente estado de conhecimento da criança e as verdades dos estudos definem a instrução. Isso demanda contínua reconstrução, indo da presente experiência da criança para aquela representada pelo conjunto estruturado de verdades que chamamos de estudos [conteúdos].


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