Wednesday, October 17, 2007

Tecnicismo bobo


O tecnicismo bobo se manifesta de várias formas. É fácil vê-lo em conversas de professores que se encantaram com máquinas e equipamentos, esquecendo-se de que gente é muito mais importante. Mas não vou falar aqui de educação e escolas. Vou falar de um caso de tecnicismo no campo da economia e do trabalho. Volta e meia aparece alguém criticando o excesso de feriados no Brasil. Tais críticas fundam-se e supostas necessidades econômicas de maior produção e mais produtividade. Parece coisa séria. E confesso que já achei que esse tipo de crítica tinha algum mérito.
Neste momento acabo de ler um trecho de The Myth of the Machine, de Lewis Mumford, no qual o autor faz uma defesa bem fundamentada dos dias santos na Idade Média. Em certas regiões da Europa, o número anual de dias santos ultrapassou a casa dos cento e cinquenta dias. Gente folgada? Não, gente que sabia que a vida não era só produzir. As muitas festas religiosas (quase sempre com atividades de música, teatro, dança e lazer) da Idade Média davam aos trabalhadores oportunidades de "gozar a vida". E a quantidade enorme de feriados na época não implicava em fome ou mais pobreza, a sociedade européia de então produzia mais do que o necessário.
Acusar os brasileiros de "folgados" e cobrar uma diminuição dos feriados nacionais, locais e dias santos é uma bobagem moralista de gente que, no fundo, vê o trabalho como uma atividade disciplinadora. Viver não é só produzir. Viver é, muito mais, gozar a vida.
Vale registrar que não somos um país de "folgados". Em média trabalhamos muito mais que diversos povos. E em algumas áreas nossos trabalhadores têm desempenhos excepcionais. Veja-se, por exemplo, o caso dos cortadores de cana. Mas isso não é nenhuma vantagem. Há bastante tempo o corte de cana deveria estar mecanizado (há tecnologia para tanto). Há quem alegue que o corte manual da cana garante empregos. Uma barbaridade. Um trabalho desumano é defendido como forma de garantir ocupação para uma parcela dos deserdados da sorte... Mas, com tanta tecnologia, será que não seria possível criar empregos mais decentes para gente que hoje se vê obrigada a bater recordes de produtividade nos canaviais brasileiros?
Há uma promessa antiga de que o progresso traria mais tempo livre. E o que vemos? Gente estressada, querendo fazer mais e mais, sem folgas, sem diversão,sem prazer de viver, sem jogar conversa fora, sem bater uma bolinha semanalmente, sem fandango, sem papos despreocupados comos amigos, sem umbigo encostado no balcão da padaria para tomar a saideira de sempre, sem um cineminha do bom, sem vadiagem numa praia qualquer, sem vida bem vivida enfim. Já é hora de discutir tal questão. Afinal de contas, parece que o avanço tecnológico de nossa época pode nos ajudar a diminuir significativamente o tempo de trampo para ganhar a existência. Com isso ganharíamos mais tempo livre, mais oportunidade de gozar a vida.

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