Wednesday, February 25, 2009

Educação e música: primeira lição



Volto ao livro de Peter Perret. Desta vez vou navegar pelo capítulo 2,
Lessons from the Pied Piper. Como de costume, não referenciarei a matéria a cada passo. Apresentarei as idéias num texto meu, mas o leitor sabe que faço aqui um resumo interpretativo desse livrinho genial sobre música na educação. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Cinco pessoas desconhecidas, carregando instrumentos musicais, entram na sala do primeiro ano primário. Sentam-se num semicírculo de cadeiras que estão próximas do quadro negro. Nada dizem. Preparam os instrumentos. Olham-se e começam a executar um peça musical. As crianças, sentadas no chão, olham para os músicos com muita atenção. Estão calmas e, ao mesmo tempo, escutam tudo com aparente prazer e curiosidade.

Assim que toca as últimas notas, o quinteto é aplaudido com entusiasmo. Debra, a flautista do grupo, dirige-se à classe. Apresenta-se e pergunta:

_ Quantas pessoas vocês vêem aqui?

Fácil. As crianças respondem:

_ Cinco.

Debra continua.

_ Como se chama um grupo musical de cinco pessoas?

Desta vez a resposta não vem e a flautista acaba dizendo às crianças que a resposta é quinteto.

Debra continua o diálogo mostrando sua flauta e tirando dela algumas notas. Pergunta se o instrumento faz os sons mais altos ou mais baixos do conjunto. As crianças respondem que a flauta faz sons muito altos. A flautista aproveita para fazer uma comparação. Lembra uma propaganda em que aparece um chihuahua. Incentiva as crianças a imitarem o latido do pequeno cão mexicano. Pergunta depois pelo cão que aparece no filme Beethoven. As crianças sabem que é um São Bernardo. Debra pede uma imitação do latido do cachorrão. As crianças tentam fazer aquele latido grave. Estabelece-se aí uma constatação: pequenos instrumentos (e cães) fazem sons altos; grandes instrumentos (e cães) fazem sons baixos.

Outra componente do quinteto, Cara Fish, entra na conversa. Seu instrumento é o oboé. Ela pede ás crianças para participarem de um pequeno experimento: colocar os dedos de uma mão junto ao pescoço e fazer um hummm. Pergunta-lhes o que sentem. Resposta: vibração. Cara continua o papo mostrando seu instrumento e solicitando comparações com a flauta de Debra.

O terceiro músico a se apresentar é Eillen Young, o clarinetista. Propõe mais comparações. Mostra partes de seu instrumento. Dialoga com as crianças sobre vibração da palheta e produção de som. Depois de Eillen, Kendal Wilson mostra seu curioso instrumento, o fagote. Maior que os outros. Com sons mais graves. Finalmente, Bob Campbell, o dono de um instrumento estranho, a trompa ou uma espécie de chifre metálico de carneiro, se apresenta. Mais sons. Mais comparações. Mais diálogo com as crianças.

Feitas as apresentações, começam as perguntas. E elas são muitas. As crianças querem saber tudo sobre os instrumentos, os sons que produzem e detalhes da vida dos músicos. O tempo voa. Os vinte e cinco minutos planejados para a conversa inicial já se foram.

Os músicos dizem que vão apresentar uma melodia bem conhecida. Pedem às crianças para acompanhar a execução sem cantar a música externamente. Pedem que a cantem "internamente". Pedem outra coisa: atenção para reconhecer qual instrumento inicia a peça musical. Finalmente, fazem outra solicitação: tentativa de acompanhar cada instrumento durante a execução. As crianças seguem atentamente a execução. Algumas movimentam os dedos, tocando instrumentos invisíveis. Todos memorizam que o oboé iniciou a música. Todos movimentam seus corpos acompanhando o ritmo.

A narrativa aqui apresentada mostra como acontece a primeira sessão dos encontros do quinteto de sopro com alunos de uma escola de ensino fundamental. No caso, a cena aconteceu na Arts Based Elementary School, em setembro de 2003. Desde 1995, esta cena é revivida no projeto Bolton.

As crianças vem de todas as classes e etnias da cidade. Muitas tem sérios déficits de aprendizagem. Os músicos nada sabem sobre isso. Não estão preocupados com essas diferenças. Estão ali para ensinar algo mais fundamental que diferenças raciais, econômicas ou sociais. O que estão comunicando é uma linguagem universal e muito antiga. O que as crianças estão fazendo é responder ao som da música com seus corpos e mentes da forma como nossa espécie humana evoluiu para fazer.

Pessoas que estiveram presentes em encontros do quinteto com as crianças enfatizam como a música ao vivo tem efeitos completamente distintos da música gravada. Ela tem uma riqueza maior, provoca grande interesse e curiosidade. Gravações tem o seu lugar em nosso mundo, mas não criam o efeito magnético que os músicos do quinteto provocam nas salas de aula.

A primeira sessão musical do quinteto tem uma raiz histórica respeitável. Recentemente foram descobertos instrumentos musicais, feitos de ossos de mamute, de mais de dezoito mil anos. Uma flauta de osso, com cerca de sete mil e quinhentos anos, achada na China, ainda produz música numa escala de sete notas. Indícios arqueológicos sugerem que já havia produção musical há uns cinquenta mil anos. Há bastante razão para se acreditar que nossos ancestrais que começaram a andar erectos liberaram a garganta para a produção musical. Isso situa a origem da música na casa de um milhão de anos ou mais.

Nossos ancestrais certamente se comunicavam por meio de sons musicais. Sons modulados devem ter funcionado como forma de comunicação para agregar membros da tribo, para planejar ação conjunta numa caçada, para indicar local com abundância de alimentos. Esses papéis ainda continuam a ser desempenhados em nosso mundo, com algumas transformações. As tribos de hoje, por exemplo, podem ser torcidas de futebol...

Cientistas como Isabelle Peretz, da Universidade de Montreal, sugerem que a núsica é instintiva. Nascemos musicais. Apreciar certos tipos de música, assim como produzí-los, são formas de concretizar um potencial que já vem instalado no organismo.

Sons modulados também devem ter sido usados pelas mães de nossos distantes ancestrais nas comunicações com seus filhos pequenos. Esta, aliás, continua a ser uma forma de comunicação de importância fundamental entre mães e filhos na primeira infância. Todos nós conhecemos e quase certamente já usamos o "manhês", um idioma no qual musicalidade é mais importante que o significado das palavras utilizadas.

A música provavelmente desempenhou papel importante no desenvolvimento da linguagem. Desempenhou também papéis relevantes na coesão social e em eventos de comunicação do dia-a-dia. Ela não era e não é tão somente um ornamento ou item de entretenimento.

Meu resumo interpretativo do segundo capítulo do livro de Perret vem até aqui. Para encerrar este post, julgo que cabem algumas observações pessoais despertadas pela leitura da obra. Vou apresentar tais observações como destaques.

  1. Os conteúdos presentes nos diálogos entre o quinteto e as crianças são musicais. Não são matéria de outra área amaciada com música. Conceitos sobre diferenças e similaridades são conversados a partir de observações sobre sons produzidos pelos instrumentos musicais. Já na primeira sessão, o quinteto explora conceitos musicais que podem gerar analogias esclarecedoras com conteúdos de outras áreas de saber
  2. A música apresentada é profissional. Essa circunstância mostra a vantagem de uma educação sobre música que se funda em produções de qualidade.
  3. A música apresentada não nasce de pesquisa sobre repertório da cultura de onde vem as crianças. Ou seja, o quinteto não toca a"música das crianças". Toca uma música de caráter universal, pois os criadores do projeto Bolton acreditam na universalidade da música. Isso sinaliza que apesar de grandes diferenças, as crianças são tratadas como gente capaz de apreciar e entender música sem marcas individuais, locais, étnicas, de classe social. Esta direção é um bom ponto de partida para considerações sobre a necessidade do universal nos programas de educação.

Sunday, February 22, 2009

Cantoras Peruanas

O título deste post poderia ser outro: IgnorânciaTupiniquim. Uma coisa que aprendi há muitos anos é que nós somos muito ignorantes. Pouco sabemos de outros povos, inclusive de nossos vizinhos da América do Sul. Em encontros com colombianos, chilenos, urugauaios, peruanos e argentinos sempre fiquei impressionado com o nível de informações culturais, históricas, políticas e econômicas que ele tem sobre os países do continente. O Brasil, isolado, auto-suficiente, meio americano e meio francês, pouco ou nada sabe de los hermanos.

Nos últimos anos descobri parte da música de nosso continente. Descobri maravilhas musicais argentinas, chilenas e uruguaias. Descobri que a música peruana é muito rica e deveria ser conhecida - e apreciada - no Brasil. Ouvir música de povos de nosso continente pode ser uma aventura educacional interessante. Pode despertar interesse por culturas que estão ali, logo depois da fronteira.

Para não ficar só na constatação e conversa, faço aqui um convite: ouça quatro cantoras peruanas cujas vozes são um presente para ouvidos que gostam de escutar boa música.

1. Chabuca Granda

A grande dama da música peruana é Chabuca Granda. Compositora de clássicos e ótima intérprete, Chabuca é a referência mais importante da canção no país dos incas. Provavelmente, sua canção mais famosa é José Antonio. Ouça-a na versão que segue.



2. Tania Libertad

Outra grande cantora peruana chama-se Tania Libertad. Depois de um começo de carreira em seu país, acabou indo para o México de onde se projetou internacionalmente. Ouça-a aqui num dueto com Joan Manoel Serrat em Papel Mojado.



3. Susana Baca

Todas as cantoras aqui apresentadas tem ligações com a música negra peruana. Mas Susana Baca provavelmente é que está mais próxima das raízes africanas. Escolhi Poema como música que pode dar uma idéia da arte de Susana.



4. Eva Ayllon

Eva Ayllon canta ritmos peruanos de toda parte. Canta música negra. Canta grandes sucessos de música latina. Escolhi um tondero, Esta es mi tierra, para apresentar Eva nesta mensagem.

Sunday, February 15, 2009

Ecos da minha juventude

Carlos Gonzaga - Diana - Cigana Luiza

Em listada qual participo, falei de Carlos Gonzaga. E falei de canção que marcou o início de minha adolescência: Diana. E não é que é possível encontrar ecos da canção famosa e do grande fazedor de sucessos, Carlos Gonzaga? Acho que só entenderão isso os maduros contemporâneos meus.

Educação e música: o começo


Depois de algum tempo, volto ao livrinho do Peter Perret: A Well-Tempered Mind - Using music to help children listen and learn. Falo aqui do primeiro capítulo: Fanfare. Escreverei sem referenciar a obra. O que segue é, ao mesmo tempo, resumo e comentário pessoal.

Não se conhece alguém que tenha embarcado na música para ficar mais inteligente. O amor pela música explica-se por amor à arte, por vontade de expressar sentimentos que não podem desabrochar de outra forma. A música traz satisfação pessoal, expressa sentimentos profundos, é inefável. A música coloca nosso corpo em movimento. A música não precisa de outra justificativa que ela própria.

A música sempre foi parte integral da educação. Nossos ancestrais [principalmente os gregos da era pré-homérica] sabiam disso intuitivamente. Infelizmente música e educação geral se separaram nos sistemas escolares modernos. Em parte isso explica (e é resultado da) a má qualidade da educação. Vista como "arte", a música converteu-se em artigo de luxo ou atividade marginal na educação escolar.

Em 1996, os alunos do terceiro ano do ensino fundamental da Bolton Elementary School tiveram notas sofríveis no teste estadual de desempenho escolar. Apenas 40% deles chegaram ao mínimo esperado ou acima desse patamar. Mas o fato não era surpreendente. Bolton era uma escola com a maioria dos alunos pertencentes a grupos economicamente desfavorecidos ou com sérios problemas sócio-psicológicos.

Um ano depois, cerca de 90% dos terceiranistas de Bolton obtiveram notas iguais ou superiores ao mínimo desejável no exame estadual. Nada havia mudado no perfil dos estudantes de Bolton. Nada havia mudado na organização da escola ou em seus recursos. A única mudança havida fora a exposição dos alunos a um programa musical conduzido por um quinteto de sopro da orquestra sinfônica de Wiston-Salem. O programa, iniciado em 1995, consistiu em colocar os músicos do quinteto como "residentes" na escola.

A "residência" do quinteto resultava em exposição musical de meia hora, duas ou três vezes por semana, nas classes dos primeiros anos do ensino elementar de Bolton. O quinteto ingressava nas salas e executava uma peça curta. Depois disso, as atividades podiam variar de acordo com um plano previamente combinado com a professora da turma. Tais atividades podiam incluir explorações sobre as particularidades de cada instrumento (diferenças nos sons, sons mais graves, sons mais agudos, relação entre tipo de som e tamanho do instrumento etc.). Podiam incluir também explorações de caráter conceptual ilustradas pela música. Exemplo: descoberta de opostos -longo/curto, grave/agudo, alto/baixo. O quinteto não foi à escola para ensinar musica, mas para ensinar por meio da música. Essa observação merece ser explicada.

Há algumas alternativas para a música na escola. Uma delas é a de voltar aos velhos tempos e ter música no currículo como uma disciplina importante (tão ou mais importante que o estudo do idioma nativo e da matemática). Outra é a de utilizar música para o ensino de um outro conteúdo. Exemplo disso é utilizar uma melodia muito conhecida para aprender o alfabeto em inglês. Finalmente há a opção de utilizar música como uma produtora de analogias que podem iluminar certos conteúdos de outras disciplinas. A primeira alternativa ainda é um sonho.A segunda alternativa é a visão hegemônica (e muito pobre) de utilização da música no espaço escolar. A terceira opção é um modo criativo de articular conteúdos musicais com conteúdos de outras disciplinas. É a opção desenvolvida pelo projeto Bolton.

Por causa dos resultados obtidos, o projeto Bolton tornou-se conhecido mundialmente. Mas a associação da música com determinados conteúdos do programa escolar ainda não tem uma de caráter estritamente científico. As questões que seguem já tem certa resposta positiva a partir da experiência dos músicos do quinteto e, ao mesmo tempo, orientam observações que vem sendo feitas por pesquisadores nas áreas de educação e neuropsicologia:

  • O trabalho dos músicos na sala de aula afetou diretamente resultados no campo da aprendizagem de matemática?
  • A canção A Little Night Music criou um número expressivo de leitores brilhantes?
  • O que ouvir música tema ver com aprender a aprender?
  • Como escutar música melhora atenção, capacidade de concentração e aprender a escutar?
Essas e outras questões parecidas sugerem modos de trabalhar música no espaço escolar. Essas e outrras questões animaram e animam o trabalho de músicos profissionais da orquestra sinfônica de Wiston-Salem em seus contatos com as crianças da escola Bolton.

Friday, February 06, 2009

Escola vista por FRATO